sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Quando seres humanos valem menos que porcos

"Caros leitores, na semana passada, refletimos sobre os meios de controle social infligidos pela “racionalidade burocrática”. Hoje, continuaremos analisando as facetas da razão a partir de uma experiência estética. No curta metragem “lha das Flores”, do diretor Jorge Furtado, ocorre uma demolidora crítica social. O filme apresenta o destino de um simples tomate, do cultivo até ser descartado no lixo e, num enredo tão singelo, escancara a irracionalidade do nosso modo de produção e distribuição da riqueza. Esteticamente, a narrativa é ágil, com jogo rápido de imagens e repetições constantes. Curioso perceber o tom cientificista da narrativa,dotada de insistente fundamentação lógica das várias atividades comuns do dia a dia, como o processo de plantio, comercialização e consumo do mencionado tomate, e cuja conclusão expõe os escandalosos (e insolúveis, de imediato) contrastes sócio-econômicos. Vamos aos trechos mais importantes da narrativa. Preparando a refeição familiar, uma dona de casa que adquirira certa porção de tomates percebe um desses estragado e descarta-o. A lixeira, contendo o vegetal apodrecido, é levada a um grande e a céu aberto depósito de detritos, chamado ironicamente de “Ilha das Flores”. Na “Ilha das Flores” existe uma criação comercial de porcos, na qual o despejo diário de dejetos gera o alimento dos animais. Os porcos saciam-se com o que podem consumir do lixo e, retirados, dão espaço para que pessoas – seres humanos!!! – se sirvam dos restos. E o tomate da nossa narrativa, desprezado pelos porcos, é colhido por uma criança faminta. A cena é estarrecedora e faz calar mesmo os gênios mais duros. Para o proprietário dos suínos, a “lógica” é a viabilidade do seu negócio. Para a dona de casa, a “lógica” é trabalhar e adquirir alimentos para sua família. Para o plantador de tomates, a “lógica” é vender seu produto. Vejam, caros leitores, que vivemos num mundo de lógica e racionalidade! Se é assim, então é “lógico” que para os miseráveis (aqueles que não conseguem se encaixar no mecanismo de produção-troca-consumo), resta sobreviver dos restos rejeitados pelo sistema. Sendo pensantes, deveríamos inquirir que lógica perversa, imediatista e excludente é essa pela qual o capital tem prioridade sobre os seres humanos. Numa perspectiva humanista, porcos não deveriam ter prioridade sobre pessoas... A dignidade deveria anteceder o capital e a atividade econômica deveria concentrar-se no atendimento das necessidades humanas essenciais e não na troca mercantil. Centradas em si mesmas, muitas pessoas apegam-se à “lógica” individualista pela qual basta garantir o sustento próprio e de sua família, sem compreender que a miséria de considerável parcela da população provavelmente inviabilizará a existência da ordem mundial tal como ela existe na atualidade. Assim, o filme referido demonstra que algo de errado ocorre com a nossa “lógica”, com a nossa racionalidade. Evidencia tal deficiência uma certa “anestesia moral”. Por exemplo, lamenta-se a derrota do time esportivo favorito num jogo, mas não se lamenta, na mesma proporção, a fome de milhões de pessoas. A inversão de valores é, assim, desconcertante.
Outro exemplo. Cruzar com um morador de rua desperta reações insólitas. Ou se desvia o olhar, ou ele não é ouvido caso se pronuncie, ou, na pior das hipóteses, é hostilizado (vide as infelizes “brincadeiras” de jovens ao incendiar vestes dos que dormem pelas ruas). Como se trata de quem não consegue se inserir na “lógica” do mecanismo produção-troca-consumo, muitos julgam razoável ignorá-lo ou mesmo hostilizá-lo. Definitivamente, algo de errado circunda nossa racionalidade..."

O Regional (03/09/09) - Vinícius Magalhães Pinheiro, Professor de Direito nas FIPA

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