"Caros leitores, na semana passada, refletimos sobre os meios de controle social infligidos pela “racionalidade burocrática”. Hoje, continuaremos analisando as facetas da razão a partir de uma experiência estética. No curta metragem “lha das Flores”, do diretor Jorge Furtado, ocorre uma demolidora crítica social. O filme apresenta o destino de um simples tomate, do cultivo até ser descartado no lixo e, num enredo tão singelo, escancara a irracionalidade do nosso modo de produção e distribuição da riqueza. Esteticamente, a narrativa é ágil, com jogo rápido de imagens e repetições constantes. Curioso perceber o tom cientificista da narrativa,dotada de insistente fundamentação lógica das várias atividades comuns do dia a dia, como o processo de plantio, comercialização e consumo do mencionado tomate, e cuja conclusão expõe os escandalosos (e insolúveis, de imediato) contrastes sócio-econômicos. Vamos aos trechos mais importantes da narrativa. Preparando a refeição familiar, uma dona de casa que adquirira certa porção de tomates percebe um desses estragado e descarta-o. A lixeira, contendo o vegetal apodrecido, é levada a um grande e a céu aberto depósito de detritos, chamado ironicamente de “Ilha das Flores”. Na “Ilha das Flores” existe uma criação comercial de porcos, na qual o despejo diário de dejetos gera o alimento dos animais. Os porcos saciam-se com o que podem consumir do lixo e, retirados, dão espaço para que pessoas – seres humanos!!! – se sirvam dos restos. E o tomate da nossa narrativa, desprezado pelos porcos, é colhido por uma criança faminta. A cena é estarrecedora e faz calar mesmo os gênios mais duros. Para o proprietário dos suínos, a “lógica” é a viabilidade do seu negócio. Para a dona de casa, a “lógica” é trabalhar e adquirir alimentos para sua família. Para o plantador de tomates, a “lógica” é vender seu produto. Vejam, caros leitores, que vivemos num mundo de lógica e racionalidade! Se é assim, então é “lógico” que para os miseráveis (aqueles que não conseguem se encaixar no mecanismo de produção-troca-consumo), resta sobreviver dos restos rejeitados pelo sistema. Sendo pensantes, deveríamos inquirir que lógica perversa, imediatista e excludente é essa pela qual o capital tem prioridade sobre os seres humanos. Numa perspectiva humanista, porcos não deveriam ter prioridade sobre pessoas... A dignidade deveria anteceder o capital e a atividade econômica deveria concentrar-se no atendimento das necessidades humanas essenciais e não na troca mercantil. Centradas em si mesmas, muitas pessoas apegam-se à “lógica” individualista pela qual basta garantir o sustento próprio e de sua família, sem compreender que a miséria de considerável parcela da população provavelmente inviabilizará a existência da ordem mundial tal como ela existe na atualidade. Assim, o filme referido demonstra que algo de errado ocorre com a nossa “lógica”, com a nossa racionalidade. Evidencia tal deficiência uma certa “anestesia moral”. Por exemplo, lamenta-se a derrota do time esportivo favorito num jogo, mas não se lamenta, na mesma proporção, a fome de milhões de pessoas. A inversão de valores é, assim, desconcertante.
Outro exemplo. Cruzar com um morador de rua desperta reações insólitas. Ou se desvia o olhar, ou ele não é ouvido caso se pronuncie, ou, na pior das hipóteses, é hostilizado (vide as infelizes “brincadeiras” de jovens ao incendiar vestes dos que dormem pelas ruas). Como se trata de quem não consegue se inserir na “lógica” do mecanismo produção-troca-consumo, muitos julgam razoável ignorá-lo ou mesmo hostilizá-lo. Definitivamente, algo de errado circunda nossa racionalidade..."
O Regional (03/09/09) - Vinícius Magalhães Pinheiro, Professor de Direito nas FIPA
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Simplismente a falta de amor ao próximo!
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